“Dizia que preferia ter morrido no bloco operatório a ter que viver tamanha estranheza no meu corpo”

Susana Azevedo Cardal cresceu com sinais de uma doença, que foram quase sempre considerados normais pelos médicos. Aos 42 anos, foi operada de urgência e descobriu que tem endometriose. No Mês Mundial de Consciencialização para a Endometriose, a SIC Notícias falou também com uma ginecologista e a presidente de uma associação de apoio a mulheres com a doença, a MulherEndo. Algumas imagens deste artigo são reais e podem impressionar os mais sensíveis.

Susana podia ter morrido. Foi o que os médicos lhe disseram. Em julho de 2017, entrou no Hospital de Leiria com “dores horrorosas” e a barriga muito inchada. A causa era a endometriose, uma doença que não sabia que tinha. Foi operada de urgência. O resultado foi uma cicatriz com cerca de 20 centímetros na barriga e um estoma, um “saquinho” no intestino grosso que permite que as fezes sejam expelidas.

Foi a única maneira de lhe salvarem a vida. Tinha 42 anos. Em cerca de uma hora de conversa com a SIC Notícias, viu sempre o “copo meio cheio”. Diz que as suas cicatrizes “são marcas de uma vida, marcas de guerra”.

Antes da rutura, Susana era acompanhada por um médico há alguns anos, numa clínica privada em Leiria, na zona onde vive, porque estava a tentar engravidar. Sentia um cansaço extremo, dores e tinha perdas de sangue “muito grandes”.

As dores e “muita menstruação”, como conta, eram constantes desde os 11 anos, altura em que teve a primeira menstruação.

Os médicos diziam que era normal e que estava tudo bem.

“Sujava-me com frequência, até na rua. Tive períodos que não lembram ao diabo”, contou.

“Sem tomar a pílula, estava constantemente com o período. Tanto tinha a 4 de março, como depois vinha a 24 de abril e depois estava 15 dias ou um mês inteiro com perdas de sangue. Mesmo a tomar a pílula, nunca fui uma rapariga que não tivesse dores. Até chegava a perder sangue a meio da pílula. Às vezes andava revoltada e não sabia porquê”, revelou.

“ACORDEI NUM CORPO QUE NÃO RECONHECI”

Susana confessou, em entrevista à SIC Notícias, que desconhecia a endometriose quando foi diagnosticada. Numa fase inicial, ficou revoltada e entrou em negação. Depois da cirurgia, não queria ver ninguém nem saber mais sobre a doença.

“Até dizia que preferia ter morrido naquele bloco operatório a ter que viver tamanha estranheza no meu corpo. Acordei num corpo que não reconheci”, afirmou, acrescentando que não estava preparada para o processo.

Quase quatro anos depois, Susana diz que tem dias mais complicados, apesar de ser uma pessoa com pensamentos positivos: “Há dias em que choro imenso. Acordo e lembro-me de certas coisas, vem assim um flash”.

Só tinha ouvido falar da endometriose uma vez, 20 dias antes da operação de urgência. A médica de família de Susana, que a acompanhava há pouco tempo, suspeitava que tivesse a doença. Do ginecologista nunca chegaram as suspeitas.

O QUE É A ENDOMETRIOSE? A GINECOLOGISTA MARGARIDA MARTINHO EXPLICA

“Quando definimos a doença quer dizer, em termos simples, que o tecido que reveste o interior do útero e que normalmente origina a menstruação, que se designa por endométrio, se localiza noutros sítios que não aquele que é o habitual, que é dentro do útero. Vamos ter tecido nos ovários, junto ao intestino, entre a vagina e o intestino, todas as zonas que estão à volta dos órgãos pélvicos e genitais podem ser afetadas, quer o sistema urinário, gastro intestinal ou noutros órgãos à distância. Pode haver endometriose que se localiza no diafragma, pode haver endometriose cerebral, pode haver lesões da endometriose em quase todo o lado”, explicou a médica Margarida Martinho, especialista em Ginecologia e Obstetrícia e secretária-geral da Sociedade Portuguesa de Ginecologia.

A ginecologista do Hospital de São João, no Porto, explica que a pessoa com endometriose vai ter o equivalente a uma menstruação nas zonas com lesões de endometriose: “Isso normalmente associa-se a um mal-estar , dor e inflamação”.

“EU AINDA ESTOU A RECONSTRUIR A MINHA HISTÓRIA, HÁ COISAS QUE NÃO ME LEMBRO”

Susana é paciente de Margarida Martinho. Começou a ser acompanhada pela médica, no Hospital de São João, depois da cirurgia de urgência no Hospital de Leiria.

“Quando me fez a palpação, disse logo que eu tinha imensa endometriose”, afirmou.

A designer foi operada de novo em março de 2018 para uma reconstrução. “Passei de um saquinho do lado esquerdo para um saquinho do lado direito. Foi um processo extremamente doloroso, sobretudo psicologicamente”, contou.

Questionada sobre o que sente quando olha para trás, ficou algum tempo a pensar.

“Eu ainda estou a reconstruir a minha história, há coisas que não me lembro. Às vezes vou ler coisas que escrevi na altura. Fui acompanhada por uma psicóloga por opção própria”, contou.

Susana não sabia nada sobre a doença nem estava preparada para viver com ela. Teve de parar de trabalhar e de parar a tese de doutoramento por uns tempos. “Não conseguia”, explicou à SIC Notícias.

DIAGNÓSTICO TARDIO. PORQUÊ?

Susana Cardal foi diagnosticada com endometriose quando tinha mais de 40 anos, já num estado avançado da doença, que lhe podia ter custado a vida.

O diagnóstico tardio é apontado por doentes e pacientes. À SIC Notícias, Margarida Martinho explicou que as técnicas de diagnóstico foram “melhorando bastante” ao longo dos anos. No entanto, referiu que a demora no diagnóstico acontecia por vários fatores: em conversas com a mãe e as amigas, “era incutida a ideia de que as dores menstruais são normais” e, muitas vezes, os médicos estavam menos alerta para a doença.

“As mulheres sofriam muitas vezes em silêncio”, afirmou, e acrescentou: “mesmo junto do médico, muitas não referenciavam as dores porque interiorizavam que tinham de aceitar essas dores”.

Já Susana Fonseca, presidente da MulherEndo – Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose, em entrevista à SIC Notícias, realçou que o diagnóstico tardio acontece “em todo o mundo”: “Acho que ainda é muito uma questão cultural. Nós ouvimos sempre dizer que ter dor menstrual é normal”.

A responsável considerou que também há, por vezes, uma desvalorização da classe médica em relação às dores menstruais.

QUANDO É QUE UMA MULHER DEVE FICAR ALERTA?

Março é o Mês Mundial de Consciencialização para a Endometriose, uma doença complexa e ainda desconhecida para muitas mulheres que, durante anos, ouviram que ter dores menstruais “é normal”. Mas quando é que uma mulher deve ficar alerta?

Margarida Martinho explicou que deve ficar alerta quando “a dor menstrual excede aquilo que é o desconforto ou dor habitualmente referida pela maioria das mulheres” durante a menstruação. É o caso de dores intensas que impeçam as suas atividades de vida diária, como ir trabalhar, socializar e que interfiram de forma significativa, com a sua vida sexual. Tem as dores menstruais, mas além disso, a dor menstrual associa-se a outros sintomas e dores”.

E exemplifica: “para além das dores menstruais, tem também dores com as releções sexuais, dores relacionadas com o funcionamento intestinal e urinário, assim como passa a ter dores ao longo do ciclo menstrual e não apenas durante a menstruação”.

A responsável da MulherEndo contou que lhe chegam casos muito diversificados. Tanto fala com mulheres assintomáticas, como com “pacientes incapacitadas” devido aos sintomas e sequelas da doença. Há casos de mulheres que perderam órgãos, contou.

Susana Azevedo Cardal sabe que os sinais sempre estiveram lá. Sempre teve dores menstruais muito fortes. À SIC Notícias, relatou vários episódios da adolescência e da fase adulta. Falou de aulas de Educação Física, em que participava mesmo com dores, por vergonha e desconhecimento da doença, dos dias em que o organismo pedia descanso, mas Susana ia trabalhar, de viagens em trabalho em que teve de ir à farmácia comprar medicação. Mas diz que confiou nos médicos.

“Ao longo da nossa vida, dizem que é normal termos dores do período. Quando um médico me diz a mesma coisa e que não havia problema, que estava tudo bem, eu confiava dele”, disse.

“Mas foi um erro muito grande, erro de incompetência. Sinto revolta, mas já senti mais”, acrescentou a designer, referindo-se à falta de diagnóstico do ginecologista que a acompanhou durante sete anos.

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Fonte: Sic Notícias

 

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